Este post é para aqueles que sonham em produzir narrativas impactantes e se tornar verdadeiros escritores. Ou seja, que publicam seus escritos e o disponibilizam para o mundo. Para isso, em primeiro lugar é preciso saber como escrever um livro de ficção e replicar esse conhecimento para seus trabalhos futuros.

Nestes quase 10 anos escrevendo histórias, eu descobri que precisava padronizar meus processos criativos a fim de continuar criando e escrevendo novos títulos. Afinal, eu amo ser escritora. E para continuar sendo, preciso continuar escrevendo.

Mas como vencer bloqueios criativos? Como fazer uma nova ideia florescer e se tornar um livro de ficção pronto para encantar novos leitores? Como bater a meta de publicar pelo menos um título por ano?

Eu obtive as respostas no estudo do ofício da escrita.

Para continuar sendo uma escritora publicada, eu descobri que é preciso ir além, escrever não apenas como uma leitora, como uma apaixonada por histórias. É necessário escrever como um escritor.

A boa notícia é que não há segredos para isso. Grandes mestres da contação de história já nos deixaram o caminho para isso. As formas estão prontas, basta usá-las de maneira autêntica para criar algo realmente impactante para o mundo.

Assim, eu analisei como eu vinha escrevendo meus livros. Identifiquei alguns padrões e defini uma metodologia a fim de replicar o processo para novos títulos. Espero que esse processo possa ajudar você a fazer o mesmo. Confira!

Como escrever um livro de ficção passo a passo

Em primeiro lugar, o que facilita a questão de como escrever um livro de ficção é a definição de etapas e de um fluxo de trabalho visual. Em suma, meu processo inclui 4 passos principais, a saber:

  • Incubação
  • Descoberta
  • Planejamento
  • Escrita

Assim, esses passos me ajudam a evitar o bloqueio criativo. Pois, uma vez que eu sei qual o que fazer em seguida, montei um escopo completo do livro antes de escrevê-lo, posso então encarar a página em branco do processador de texto sem muitas dificuldades.

Como começar a escrever um livro de ficção

A fase de Incubação é quando a ideia paira na sua mente. A ideia de um livro surge da experiência pessoal do escritor, de suas observações, reflexões, crenças, valores e etc.

Assim, podemos esperar uma nova ideia surgir ou investigar em nossas experiências para descobrir novas fontes de ideia.

No caso da escrita profissional, o interessante é buscar sempre novas ideias para novos livros de forma ativa. Ou seja, vasculhando nossa mente em busca de algo que impulsione nossa vontade de escrever.

Resumidamente, funciona assim:

Um escritor gosta de escrever. Então, para escrever precisa de uma nova ideia. Essa ideia pode surgir voluntariamente ou ser encontrada pelo escritor, quando este assume uma posição ativa e vasculha sua mente em busca de uma boa ideia.

O que é uma boa ideia

Ainda, outra questão permeia a mente de muitos escritores na hora de começar a escrever um livro de ficção. Além de ter uma ideia, como saber se essa é uma boa ideia para um livro?

Para responder essa pergunta, você precisa ser sincero e honesto com você mesmo.

Não adianta buscar uma ideia “comercial”, ou seja, aquela que você acha que vai vender mais, grudar na mente do leitor ou ser mais chamativo. Pois, se for esse o caso, poderá produzir algo superficial e sem valor para você. Consequentemente para o seu público.

Logo, o critério básico para escolher uma ideia e ter certeza de que ela é tem:

Significado: a ideia de um livro deve ter significado para o escritor. Se houver significado para o escritor haverá significado para o leitor.

O melhor caminho para uma escrita de excelência é sendo verdadeiro.

Assim, você será autêntico e, mesmo que escreva sobre algum tema já trabalhado por outros autores (sem dúvida isso irá acontecer), conseguirá fugir do clichê e criar algo propriamente seu, do seu jeito, de uma perspectiva nova e única.

Portanto, uma boa ideia é aquela que você gostará de escrever, ler e terá satisfação ao dizer “este livro é meu”.

Da Incubação à Descoberta

Após vasculhar a sua mente e encontrar uma ideia com significado, deixe-a crescer naturalmente na sua mente por um tempo.

Você vai passar os dias com ela. Sem muito esforço, essa ideia vai crescer na sua mente de forma passiva. Então, quando ela estiver mais clara, chega a hora de desbravá-la mais ativamente.

Por exemplo, quando a ideia incubada tiver um fato principal que conduzirá toda a história, alguns personagens e ambiente, aí, você pode partir para a etapa de descoberta.

Só para ilustrar, meu autor preferido, J. R. R Tolkien afirmou várias vezes que não sabia muito quando teve seu primeiro vislumbre de O Hobbit.

Segundo os relatos do autor, ele estava corrigindo uns trabalhos acadêmicos quando lhe veio a ideia de escrever: “Numa toca no chão vivia um hobbit.”

Talvez, Tolkien não tivesse se atentado logo no início que a inspiração de O Hobbit surgiu de suas experiências de infância, suas viagens, sua paixão pela natureza, idiomas e etc. Mas, de fato, quando olhamos para a trajetória pessoal do autor reconhecemos alguns de seus elementos literários.

Mas, como continuar a partir dessa ideia?

O vislumbre de Tolkien originou um cenário (toca) e um ser, um personagem (hobbit). De forma semelhante, em meu primeiro livro, o vislumbre da minha ideia veio de uma conversa com meu pai e minha irmã:

Um mundo habitado por pessoas com superpoderes, tecnologia superavançadas, mas que vive conflitos socioambientais tão profundos que gera um verdadeiro caos de valores. Nesse meio, existe um menino que não tem super-habilidades aparentes, mas em um determinado evento acontecido com sua irmã, é envolvido por algo sobrenatural.

Assim como Tolkien, eu identifiquei um cenário, um possível protagonista, um conflito e até mesmo um evento responsável por fazer a história tomar seu rumo.

Então, eu soube que precisava conhecer melhor esse mundo, as pessoas que nele habitariam, seus principais conflitos e muitos outros detalhes. É aí que chega a faze de descoberta.

Descobrindo os detalhes do mundo fictício

Em segundo lugar no processo de como escrever um livro de ficção entra a fase de descoberta.

Nessa etapa, o escritor precisa fazer perguntas à ideia que já fora incubada. No exemplo de O Hobbit, poderíamos questionar:

O que é um hobbit? Qual seria sua aparência? Por que eles vivem numa toca no chão? Como seria essa toca? O que eles fazem? Como se alimentam? Quais seus hábitos? Onde fica essa toca?

No caso do meu livro, A Irmandade Secreta, eu precisei entender os eventos prévios que desencadearam o ambiente caótico do mundo a ser criado. Daí, surgiram as perguntas:

Por que seria importante ter superpoderes?

Resposta: para sobrevivência humana.

Por que foi importante desenvolver superpoderes a fim de sobreviver?

Resposta: eventos climáticos devastadores inimagináveis que quase extinguiram a raça humana.

Como as pessoas obtiveram superpoderes?

Resposta: manipulação e programação genética.

Por que o protagonista não tem superpoderes?

Resposta: porque foi concebido naturalmente, sem manipulação genética.

Essas são apenas algumas das questões que nortearam a minha descoberta para a série Derek Dustin e As Crônicas do Rei. Cada uma delas levava a mais uma pergunta, que por sua vez me levava a outro elemento fundamental da fase de descoberta: a pesquisa.

Sobretudo em histórias de ficção-científica, os fatos devem ser muito bem conectados e plausíveis. O público de qualquer história espera um enredo crível. Ou seja, mesmo ficcional, ele deve seguir as regras desse mundo de forma coerente. Nos gêneros de fantasia e ficção-científica isso é ainda mais exigido.

Então, a pesquisa é essencial para criar respostas plausíveis a fim de tornar o mundo criado o mais real possível. Real não no sentido de próximo da nossa realidade cotidiana, mas real no sentido de ser vívido pelo leitor.

Em suma, o leitor precisa ver e sentir o mundo criado. Para isso, o escritor deve conhecer seu mundo como a palma da sua mão. A pesquisa é a chave para isso.

Assim, resumidamente, a fase da descoberta precisa preencher as lacunas do ambiente da sua história. O ambiente possui 4 níveis básicos:

  • Localização: espaço físico e geográfico onde a história se passa
  • Período: lugar da história no tempo. Por exemplo, é uma história medieval? Contemporânea ou futurística?
  • Duração: extensão da história ao longo do tempo. Ela vai passar em quanto tempo, um dia? Um semestre? Um ano?
  • Conflito: o que está em jogo nesta história? No caso da minha série Derek Dustin e As Crônicas do Rei, o gancho foi a sobrevivência humana, que acabou desencadeando diversos conflitos internos, externos e pessoais nos personagens (falaremos deles mais adiante)

A pesquisa é a ferramenta que vai potencializar o conhecimento do escritor quanto à sua criação. Segundo Robert Mackee, ela pode ser subdividida em:

  • Memória: relembre tudo o que você sabe sobre os aspectos da sua história
  • Imaginação: pergunte sempre e se…
  • Fatos: vá além das suas experiências pessoas e pesquise no Google sobre fatos reais relacionados ao ambiente da sua história

Perceba que até aqui, sua história está ganhando uma magnitude incrível. É muito mais do que uma ideia solta, ela está ganhando forma como um vaso moldado por um oleiro!

Então, você ainda precisa descobrir mais alguns detalhes importantes:

  • Que tipo de história é essa (gênero literário)
  • Quem é o protagonista, o que ele quer x o que ele precisa?
  • Quem é o antagonista?
  • Qual o ponto de partida e o ponto de chegada da história (como ela começa e como termina)?
  • Qual (ais) evento (s) levará (rão) a história progredir do ponto de partida ao ponto de chegada?
  • Qual a história prégressiva? O que aconteceu até o ponto de partida da história?

Gênero literário

A questão do gênero precisa estar nos seus planos de como escrever um livro de ficção. É uma história de amor, uma ficção científica, um suspense, drama, aventura ação?

Você precisa descobrir isso para pesquisar textos dentro desses gêneros e subgêneros e conhecer seus padrões. Isso não significa cair no clichê, na mesmice. Mas sim conhecer o tipo de história o qual você está prestes a escrever.

Afinal, o público não é ignorante. As pessoas já tiveram contato com inúmeras histórias antes de ler o seu livro. Elas conhecem, mesmo que de maneira subconsciente, os padrões dos tipos de história comuns.

Por exemplo, uma história de amor tem sempre um casal que se apaixona, mas enfrenta algum problema para ficar junto até construírem uma jornada amorosa.

O escritor consegue construir uma narrativa autêntica descobrindo os detalhes dessa história, fazendo perguntas e criando caminhos verdadeiros em sua narrativa, aquilo que é significativo.

Protagonista

Protagonista é uma força de vontade da história. Ele sempre reage aos eventos, mesmo de forma passiva. Deve ser empático, capaz de envolver o leitor na história, guiar o leitor para dentro das páginas do livro de forma emotiva e significativa, fazer a audiência pensar: “puxa, eu já passei por isso” ou “já me senti assim” ou “sei como é isso”.

Além disso, o protagonista quer alguma coisa e ao mesmo tempo precisa de alguma coisa. Não necessariamente essas duas coisas são iguais. Nas histórias contemporâneas, a forma que mais impacta a audiência é quando o que o protagonista quer é diferente do que ele precisa.

Assim, em sua jornada ao longo da história, ele buscará o que ele quer, mas descobre que isso não é de fato o essencial para sua vida. Então, abre mão de seus desejos em prol do que realmente precisa, no momento denominado clímax.

Só para exemplificar, em um livro que estou escrevendo, meu protagonista está “preso” no passado e quer justiça por um assassinato. Mas, na verdade, o que ele precisa de verdade é se libertar do passado e seguir em frente. No clímax, ele será pressionado a fazer uma escolha entre continuar perseguindo cegamente o seu desejo (justiça) ou abrir mão dela por algo maior (libertação). Isso sempre envolve algum risco. A escolha não pode ser fácil e deve ser sacrificial.

Então, entre na mente do seu protagonista e entenda o que ele quer, qual seu conflito, sua motivação e como isso está conectado ao que ele precisa. De preferência, identifique uma necessidade oposta ao desejo consciente do protagonista, o que o fará sacrificar algo em prol do seu crescimento. Assim, ao final da história, ele terá o que chamamos de correção de caráter — que caracterizará o ponto de chegada.

Esse é apenas um tipo de forma de contar uma história. Mas é o que tem surtido mais efeito às pessoas. Então, vale a pena dominar na sua escrita!

Antagonista

O antagonista é uma força contrária ao protagonista. É um bloqueio na sua jornada, entre o que ele quer e o que ele precisa.

Quando essa força contrária se materializa em uma pessoa, em outro personagem, este é o vilão.

Não se trata necessariamente de alguém mal ou bom, mas alguém  / algo que impede e dificulta a vida do protagonista ao longo da história.

Por exemplo, em Procurando Nemo, o antagonista se trata dos perigos do mar. Marlim tem medo do mar, mas precisa enfrentá-lo para salvar seu filho Nemo.

Diferentemente de A Branca de Neve, cujo antagonismo se materializa na Rainha Má, que impede Branca de viver feliz para sempre com seu amado príncipe, ameaçando não apenas sua felicidade, mas também sua existência.

Ponto de partida e ponto de chegada

Em qual situação o seu protagonista vai começar a história? Em qual terminará?

Uma ferramenta que ajuda a definir esses estágios é o arco do personagem. É possível aplicar esse arco em todo tipo de personagem. Mas, o mais importante é entender qual o arco do protagonista e do antagonista.

Arco do Personagem

 

Antes de mais nada, é necessário identificar o conflito de ambos, bem como a sua característica dominante (que é mais interessante ser um defeito).

Por exemplo, um protagonista que é egoísta. No clímax, ele poderia ter que escolher entre seu objeto de egoísmo ou abrir mão da obsessão e aprender a dividir. Então, ele começa egoísta, fica mais egoísta, até cair em si e reconhecer que se não mudar estará fadado a um futuro mesquinho. Logo, decide abrir mão do egoísmo exagerado e aprende a dividir.

O arco desse personagem seria de crescimento. Não há nenhuma mudança substancial, ele ainda é a mesma pessoa, mas com uma mudança de caráter, uma superação.

Assim, este é um arco positivo, em que o protagonista começa com um defeito / problema (negativo) enfrenta uma jornada para superar esse defeito / problema e no final se torna a melhor versão de si mesmo, superando esse defeito / problema (positivo).

Diferentemente do arco de queda, o qual termina negativo. Nesse tipo de arco, o personagem, pode começar negativo, tender ao positivo (abrir mão do seu defeito / problema), mas decidir continuar na mesma situação problemática ou até mesmo pior do que começou.

Esse é geralmente o arco dos vilões (antagonismo), mas pode ser usado em qualquer personagem, inclusive no protagonista. Sobretudo quando estamos falando de um anti-herói.

O outro arco muito conhecido é o arco de mudança ou transformação, muito usado na famosa jornada do herói, estrutura muito usada em filmes e histórias de ficção em geral.

O arco de transformação envolve a mudança completa do protagonista, uma transformação total. Ele passa de um ser comum para um herói, um salvador dentro da história. Tipo aquela história de escolhido, vista em Matrix e Harry Potter, lembra?

Definir o arco do personagem é interessante, pois ajuda a ter um panorama geral de para onde a história vai (ponto de chegada). Assim, todos os eventos devem convergir para essa meta, levando o protagonista nessa direção. Da mesma forma, o antagonista deve se opor a essa jornada, como um obstáculo ao ponto de chegada.

No exemplo do protagonista egoísta com arco de crescimento, o antagonista precisa estimular esse defeito do protagonista, fazendo-o exalar seu pior lado. Mas, no clímax, o protagonista vence a tentação, abre mão desse desejo obsessivo e se torna menos egoísta, aprendendo a dividir.

Isso se aplica a qualquer um dos arcos definidos. Como escritor, seu dever é entender a essência do seu personagem, seu conflito e característica principal. Pergunte-se: esse seria o tipo de pessoa que vai mudar positivamente no final, ou sucumbir para a pior versão de si mesmo?

Entenda isso, monte seu arco do personagem e crie eventos capazes de representar verdadeiros obstáculos nessa jornada da situação inicial para a final.

História pré-gressiva

Outra ferramenta fundamental para saber como escrever um livro de ficção é história pré-gressiva dos seus personagens e do próprio mundo criado. Ou seja, os fatos que levaram sua narrativa até o momento que está sendo contada.

São os eventos anteriores ao início da sua história, que podem ser incluídas no livro ou não. Seja como for, o escritor precisa ter essas informações para criar algo palpável, crível e com maior magnitude possível.

Neste vídeo, eu explico como eu montei partes da história pré-gressiva da série Derek Dustin e As Crônicas do Rei:

 

Muitas dessas explicações não estão presentes na história em si, mas me ajudaram e compreender o mundo criado, seu conflito, as pessoas que habitam nele e principalmente o vilão da história (o imperador).

Assim, como escritora, eu obtive uma dimensão mais real do livro que eu queria escrever e pude fazer as escolhas criativas mais pertinentes àquilo que eu queria contar.

Da descoberta ao planejamento

O processo de como criar um livro de ficção não é linear. Funciona mais como algo cíclico. Quanto mais você descobre, mais perguntas tem, o que leva a mais pesquisas, mais descobertas e assim por diante.

Processo - Como criar um livro de ficção passo a passo

Então, quando a ideia já está suficientemente clara na sua mente, ou seja, com a definição de:

  • Protagonista, seu conflito e característica principal e seu arco do personagem
  • Antagonista, sua motivação e arco do personagem
  • Ambiente
  • História pré-gressiva
  • Gênero / subgênero literário
  • Eventos
  • Ponto de partida e ponto de chegada

Você pode partir para o planejamento do livro. As etapas anteriores envolvem mais criatividade do que técnica, embora existam técnicas envolvidas.

Mas, aqui no planejamento, a técnica de contar histórias sobressai à criatividade pura, embora todo trabalho sirva para potencializar a criatividade do autor. É um processo cíclico, como afirmei anteriormente.

Dessa maneira, como escritor, você precisa desbravar o mundo da narratologia.

“A Narratologia é o estudo das narrativas de ficção e não-ficção (como a História e a reportagem), por meio de suas estruturas e elementos.” — Wikipédia.

Diversos pesquisadores já se perguntaram quais os elementos de uma boa história e como replicá-los. Estudiosos como Vladimir Propp, que padronizou os componentes básicos dos contos (Morfologia do Conto Maravilhoso), Tzvetan Todorov que analisou diversos gêneros literários e propôs o termo narratologia para o estudo nesta área. Como também Joseph Campbell, que identificou o padrão da jornada do herói (O Herói de Mil Faces) e Christopher Vogler que usou a jornada do herói para estipular uma forma de contar histórias incríveis, observada em O Rei Leão, Matrix e outras (A Jornada do Escritor).

 Como escrever um bom livro de ficção

A resposta é: planejando seu livro com os elementos e a estrutura devida.

Cada gênero tem suas características e pede elementos específicos, montadas numa estrutura com algumas particularidades do gênero literário e do estilo próprio do autor.

Falando em estrutura, ela nada mais é do que a composição da história, suas partes e como devem evoluir ao longo da narrativa.

Ajuda se você olhar do macro para o microambiente. Nesse sentido, o escritor precisa dominar o design clássico da estrutura, composta por 3 atos, que se resumem ao famoso início, meio e fim da narrativa.

Atos

Um ato é uma série de sequências que culminam em seus respectivos “mini-clímax”, até o clímax de toda a história.

Aristóteles propôs essa divisão da história a fim de padronizar a criação de narrativas marcantes, capazes de impactar a audiência, de deixar a história contada na mente dela.

O início, meio e fim são os 3 atos básicos de uma narrativa definidos por Aristóteles:

“Assentamos que a tragédia é a imitação duma ação acabada e inteira, de alguma extensão, pois pode uma coisa ser inteira sem ter extensão. Inteiro é o que tem começo, meio e fim.” — Aristóteles, “Poética”, tradução por Jaime Bruna.

  • O início (Ato 1 – Apresentação) tem uma situação X que recebe um desequilíbrio
  • O meio (Ato 2 – Confronto) é composto pela tentativa de retorno ao equilíbrio ou remoção do objeto causador do desequilíbrio
  • O fim (Ato 3 – Resolução) traz o desfecho da história, uma situação Y reequilibrada.
Apresentação (Ato 1)

A Pixar resume o Ato 1 da seguinte forma:

É aqui que conhecemos nosso protagonista. Descobrimos onde e quando a história se passa. O primeiro ato diz o tipo de narrativa que ela está prestes a consumir: drama, comédia, suspense, ficção científica, fantasia, etc.

Ao longo desse primeiro ato, ocorro um Incidente Inicial ou Primeiro Desastre, um evento instigante que colocará o protagonista em movimento e trará ritmo à história. Nesse ponto, o antagonista também é apresentado. Ele não é necessariamente o vilão, é uma força contrária a o que o protagonista quer e precisa.

Confronto (Ato 2)

No segundo ato, vemos como o protagonista reage ao Incidente Inicial.

Na primeira parte do Ato 2, há mais obstáculos e a jornada vai ficando mais difícil, culminando do Segundo Incidente ou Segundo Desastre.

Na segunda parte do Ato 2, vemos um protagonista cercado por problemas, num momento de denominado Crise, o que o faz tomar uma decisão, uma escolha sem volta. É aqui que ocorre o clímax do segundo ato, o qual leva ao obstáculo crucial e o clímax de toda história (início do terceiro ato)

Resolução (Ato 3)

Começa com o confronto final, o teste final que exige um desfecho. É aqui que o protagonista enfrenta e sacrifica o que quer em detrimento do que precisa (no arco em crescimento).

As perguntas e pontas soltas da história são respondidas e o protagonista atinge o ponto de chegada definido previamente pelo escritor.

Estrutura de 3 Atos

Expandindo os 3 Atos básicos

A estrutura de 3 Atos é a base para qualquer outra estrutura.  Ao longo do estudo dela, outros pensadores e pesquisadores traçaram mais atos ou partes fundamentais de uma história. Um deles foi Propp, que bolou a estrutura em 5 Atos, composto por:

  • Apresentação / Exposição
  • Conflito
  • Ação Ascendente
  • Clímax
  • Ação em queda
  • Desfecho

Contudo, ela é apenas um “zoom” na estrutura básica proposta por Aristóteles.

Outros estudiosos descrevem essas cinco partes assim:

  • Incidente Iniciante
  • Complicações Progressivas
  • Crise
  • Clímax
  • Resolução

Particularmente, gosto de pensar da seguinte maneira:

  • Incidente iniciante = Ato 1
  • Complicações Progressivas + Crise = Ato 2
  • Clímax + Resolução = Ato 3

Assim, consigo vislumbrar que tipo de eventos preciso criar para fazer a história progredir do ponto de partida ao ponto de chegada.

Elementos da estrutura (termologia)

Já falamos dos Atos, mas eles são a maior partícula de uma história, o macro.

Depois de pensar no macro, é importante dar um zoom no planejamento e pensar nas micropartículas da narrativa. Funciona assim:

Beats (mudança de comportamento que ocorre por ação e reação) > Cenas (fluxo de ações com um conflito dentro de um espaço de tempo) > Sequências (série de cenas) > Atos.

Dessa forma, o jeito mais perfeito de escrever é criando beats que geram cenas que desencadeiam sequências que terminam nos atos básicos da narratologia.

É um trabalho minucioso, sem dúvida. O primeiro passo é definir o macro, ou seja, os atos da sua história, descrevendo seus respectivos elementos. Em seguida, o escritor tem base para pensar como criar micropartículas que convergem para esse macro (beats, cenas e sequências).

Escopo de capítulos

Daí, você consegue fazer um escopo de capítulos, um resumo de tudo o que vai acontecer na história, divida em cada uma de suas partes.

Incrível, não?

É como um quebra-cabeça, onde você mesmo vai criando as peças e montando dentro da forma proposta pelos clássicos há anos.

Finalmente, a escrita!

Após criar um resumo do que vai acontecer em cada capítulo do livro, mediante seus elementos e sua estrutura, o escritor está perfeitamente apto a seguir para a fase de escrita. Ufa!

Porém, novamente, reforço que esse processo não é linear. Você pode começar a escrever sem terminar o planejamento ou voltar ao planejamento para corrigir algumas coisa, ou tomar outras escolhas criativas no meio do caminho. Afinal, não estamos falando de uma ciência exata.

Durante a escrita, você pode fazer novas descobertas, o que poderá exigir novas pesquisas, que, por sua vez, pedirá outros eventos que poderão abalar a estrutura da história.

Mas, tudo bem, pois esse vai e vem enriquece sua história e, sem dúvida, ajudará você a criar uma narrativa palpável, única e profunda.

Seja como for, essas técnicas, estudos e ferramentas servem para potencializar sua criatividade e dar bases para a construção de um mundo fictício perfeito. Assim, seus leitores farão “uau!” a cada página virada — e ainda pedirão mais!

Viu como escrever um livro de ficção não é só sentar em frente ao computador e começar a escrever sem mais nem menos?

É preciso um processo para continuar escrevendo profissionalmente e criando novos títulos.

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