Muito se fala em formação de novos leitores, como se o que fosse preciso mudar fosse os público e não as ofertas de livros e a forma de levar ao mercado novas experiências de leitura.

Essa é uma questão muito recorrente entre os mediadores de leitura, e não é um tema só de hoje. Os desafios para a formação de leitores são constantes há anos, sendo assunto de diversos eventos educacionais e rodas de conversa entre os corredores da escola.

Mas, o que tem sido feito para resolver o problema?

Analisando um pouco o desafio de formar leitores, encontrei um artigo maravilhoso de Pedro Almeida, publicado no site da PublishNews.

Nele, o jornalista e professor de literatura aponta como se tem falhado no processo de formação de novos leitores.

Assim, resolvi aproveitar a abordagem de Pedro Almeida e criar este post comentando alguns pontos que ele desenvolveu na matéria. Ao final, vou adicionar o link do artigo original. Leia até o fim e veja que erros devem ser eliminados para que possamos de fato formar leitores no Brasil!

O papel da família na formação de novos leitores

Antes de apontar os erros que não podem ser cometidos para obter bons resultados na formação de novos leitores, é preciso entender o papel de cada parte nesse processo. Isso envolve os pais, bem como a escola e os professores.

Em primeiro lugar, destaco a importância da família, sobretudo os responsáveis pelas crianças e jovens, na formação de novos leitores.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), só há leitura quando esta se trata de um hábito nacional e vem de casa. Além disso, é necessário, além do exemplo dentro da família, o incentivo.

“Só há leitura quando esta se trata de um hábito nacional e vem de casa”.

Posso atestar essa premissa por experiência própria.

Como os pais influenciam o hábito de leitura

Meu pai introduziu o universo da leitura na minha vida e na de minhas irmãs desde cedo. Muito além de livros, primeiramente, meu pai apresentou a magia das histórias, por meio de desenhos animados, filmes e histórias em quadrinhos.

Assim, meu anseio por novas histórias me levou aos livros desde criança. Logo, conforme fui amadurecendo e aprendendo como ler um livro, fui buscando novos títulos e desbravando novos gêneros literários.

Dessa maneira, cheguei com muito prazer às obras de Machado de Assis, Euclides da Cunha e Lima Barreto, por exemplo. Mas, tudo começou com o encantamento, como o entretenimento, a diversão.

O ápice de minha formação como leitora foi quando eu decidi criar minhas próprias histórias e me tornei uma escritora. Até em minha primeira obra meu pai teve influência, pois me ajudou até mesmo no esboço dos meu primeiro enredo.

Porquanto, além de exemplo, pois meu pai é um leitor assíduo, consumidor desde “O Conde de Monte Cristo” a “Harry Potter”, não me faltou incentivo, seja para a leitura quanto para a escrita.

Desde pequena, meu pai compartilha uma leitura que está fazendo e me estimula a descobrir novos livros. Nossa casa é repleta de livros! E, enquanto autora, nunca faltou incentivo de todas as áreas para eu continuar escrevendo, haja o que houver!

Como ser um responsável influenciador

Estou contanto isso como testemunho de como a família é importante nessa formação do leitor. Se não fosse meu pai, certamente não me motivaria a ler por conta própria. Afinal, eu nem teria acesso ou seria facilmente despertada pelo mundo da leitura.  Então, se você é pai ou mãe, saiba que seus filhos só vão ter o hábito de ler se:

  • Você pai ou mãe for um leitor;
  • Incentivar a leitura indicando novos títulos e adquirindo novos livros.

Só para ilustrar, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, 11% da influência do gosto pela leitura vem da mãe ou responsável do sexo feminino. É a primeira influência dentro do grupo que afirmou ter um alguém importante em seu processo de formação como leitor.

Logo, os responsáveis por essas crianças e jovens precisam assumir esse papel e levar mais leitura aos seus filhos.

A responsabilidade da escola e do professor na formação do leitor

Em segundo lugar, abordando a escola, sua responsabilidade gira em torno da alfabetização e também letramento dos alunos. Assim, junto com o ensino da decodificação dos elementos gráficos do texto, é preciso despertar a sensibilidade dos alunos, a fim de imergi-los no universo da leitura. Isso diz respeito ao letramento.

Dessa forma, além de identificar o alfabeto e ler frases, os estudantes serão capazes de compreender o sentido do texto.

Trabalhando a sensibilidade desses alunos, por meio de atividade lúdicas envolvendo os livros e a leitura como um todo, é possível engajar mais com eles e envolvê-los de forma mais eficiente.

O professor (a) influenciador (a)

Já o professor precisa ser um influenciador da leitura. De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2016, família e escola desempenham papel fundamental no desenvolvimento pelo gosto da leitura.

Porém, 67% das pessoas que gostam de ler afirmam não ter tido qualquer influência especial para o hábito de leitura. Dos que tiverem alguma influência, 7% foi algum professor.

Logo, vejo que o papel de influência tanto do professor como da escola ainda precisa ser aprimorado e melhor aproveitado.

Nesse sentido, além de estímulo à leitura dentro da sala de aula, há outras medias que a escola pode adotar para reverter os baixos índices de leitura no País. Quais sejam:

  • Investimento em bibliotecas dentro das escolas: o acesso ao livro é apontado no levantamento como condição para a criação do hábito da leitura. Nesse aspecto, as bibliotecas escolares se destacam nos dados como principal meio de acesso gratuito aos livros. Portanto, a escola deve investir em mais ambientes de biblioteca e também em novos títulos para os espaços já criados;
  • Desenvolvimento de ações e projetos literários: o instituto Unibanco aponta exemplos como: saraus, encontros com autores, clubes de leitura e feira literária escolar.

Confira abaixo o vídeo disponibilizado pelo Unibanco sobre o projeto “Árvore da Leitura”, proposto por Antonio Onofre Gomes Ferreira, diretor da Unidade Escolar Afonso Mafrense, em Altos (PI):

4 erros que um mediador de leitura não pode cometer

Depois de traçar os principais fomentadores do hábito da leitura, vou agora apontar os erros comuns no processo de formação de novos leitores. Confira e aprenda a evitá-los:

Erro#1: Oferecer um catálogo desatualizado e sem contemporaneidade

Diversos profissionais da indústria do livro, inclusive Pedro Almeid, que me inspirou na escrita deste post, apontam que se há um incentivo da leitura, não há o incentivo correto. E o primeiro fator para isso é um catálogo tradicional e sem espaços para obras contemporâneas.

Segundo Pedro, é preciso adotar livros com menos de 20 anos de publicação. Ele aponta — muito sabiamente — que hoje obras como Harry Potter já não são tão sensacionais para as crianças atuais como foi para as dos anos 2000.

Outros ainda opinam que as escolas “empurram” os livros paradidáticos aos estudantes, que precisam lê-los apenas com a finalidade de fazer uma boa prova.

Além disso, vemos a obsessão das escolas pelos livros clássicos, os quais adolescentes e jovens são submetidos mesmo que a linguagem e, às vezes, até os temas sejam irrelevantes, inadequados e incompatíveis com os dias atuais.

Isso precisa mudar!

Ninguém está falando de remover os autores clássicos das escolas. Apenas para colocá-los em um segundo plano, quando o leitor já tiver sido cativado.

O problema é que as escolas lidam com o adolescente e jovem como se estes já fossem leitores ávidos. Os dados mostram que não são. E é preciso encarar a situação como ela é e não como deveria ser.

Os adolescentes e jovens se desinteressam pela literatura apresentada pela escola. O primeiro passo para atender a questão de como incentivar a leitura entre os jovens é atualizando o catálogo de bibliotecas escolares e domésticas com livros recentemente publicados.

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Erro #2: Criticar outras preferências de leitura

A hierarquia de leitura só existe em um País de leitores, o que o Brasil não é. Portanto, valorizar um tipo de literatura em detrimento de outra é um erro que muitos mediadores cometem por se manter na visão tradicional da formação de novos leitores. De modo a se manter no erro número um.

Nesse sentido, voltamos ao assunto de abordar nas escolas livros de literatura comercial. Por que não incluir obras de John Green, Nicholas Sparks e J. K. Rowling nos estudos literários das escolas? Se esses são alguns dos autores mais lidos pelo público adolescente e jovem?

Por outro lado, em seu artigo, Pedro adverte que tentar essa atualização não deve ser feita de forma simplificada e estereotipada. O jornalista afirma que:

“Levar literatura para jovens que não leem não quer dizer levar literatura marginal, das ruas, poesia de protesto, de hip hop ou funk”.

A solução é buscar leitura divertida, visando primeiramente o entretenimento. A formação do leitor crítico vem em segundo estágio.

Erro #3: Dialogar pouco (ou nada) com novos leitores

Onde encontrar assuntos relevantes para os novos leitores? Pergunte a eles!

Seja na escola ou em casa, os mediadores de leitura precisam dialogar com esse público a fim de entender onde e como consomem informações.

Eles estão cada vez mais conectados à internet. Mas, isso não significa uma rivalidade com a leitura. De acordo com os levantamentos, mais da metade dos jovens lê notícias on-line.

Assim, as mídias digitais, se forem bem utilizadas, podem ser um canal estratégico para influenciar a leitura a esse público. Seja por indicação ou para identificar tendências e preferências dos jovens.

Erro #4: Ignorar novos autores

Não há como formar novos leitores sem produtores de conteúdo, escritores e contadores de história. Esses criadores precisam ser valorizados por quem tem interesse na formação de novos leitores.

Essa valorização pode ser feita em forma de convites a feiras literárias, palestras e projetos literários, acompanhamento do trabalho nas redes sociais dos autores e, finalmente, adquirindo suas obras.

Além disso, levar os novos autores aos novos leitores é uma forma de aguçar a curiosidade do público, engajá-los com o universo dos livros e até mesmo incentivar novos escritores.

Afinal, nesse processo, podemos alcançar quem tem o desejo de escrever, mas ainda não recebeu o estímulo para isso. Assim, conhecendo novos escritores, talvez de sua idade, os jovens podem até mesmo se interessar pela escrita além da leitura.

Como evitar esses erros na formação de novos leitores

Além de identificá-los, busque se renovar constantemente. Converse com os novos leitores, descubra seus gostos e preferências. Antes de tudo, não restrinja as opções e abra sua mente para o novo.

Como resultado, após investir corretamente na formação de novos leitores, estes estarão prontos para continuar lendo. Então, será possível ampliar as indicações de obras. Aí chega o momento de desbravar o clássico, bem como a leitura crítica.

Portanto, aposte primeiro na leitura por diversão, no entretenimento. Em seguida, dê mais opções aos novos leitores, mostrando novos gêneros e autores. Assim, seremos um País que ama leitura. Que assim seja!

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Link do artigo escrito por Pedro Almeid: https://www.publishnews.com.br/materias/2018/08/21/o-que-voce-sabe-sobre-a-formacao-de-leitores-pode-estar-errado